Na casa da vovó



A semana passada deixei meu moleque na casa da vovó. Quando voltei ele veio me mostrar uma pedrinha muito bonita que havia ganhado dela.

Eu muito intrigada perguntei, mas por que ela te deu esta pedra?

Ele me respondeu: - Para eu falar com ela quando eu precisar e ela não tiver mais aqui!!!

Fiquei emocionada pelo gesto, e ao mesmo tempo triste, pois minha mãe é nova e já está preparando os netos para sua partida...

Crianças só precisam da nossa presença...e quando for a nossa hora eles saberão onde estão cada uma das lembranças, podem acreditar!!

Fez-me lembrar de uma história que eu li num livro de 2 série de português, era assim:

Anúncio de Jornal


Com um friozinho na barriga e os dedinhos em figa, o menino entregou seu anúncio ao moço do jornal:

-É tudo isso aqui? – perguntou o homem.

- É moço! Com vó se fala muito.

- Posso ler?

-Não! Só minha avó...

- Mas preciso, para poder escrever no jornal.

- Então tá.

Vovó Luísa,

Vó, tô botando este anúncio no jornal, porque tem um bichinho, aqui dentro de mim, que não me deixa em paz. Papai falou que era saudade e deu a ideia do anúncio no jornal, já que é difícil a gente se encontrar...mamãe acha que é besteira, diz que você não volta mais e que está morando no céu. Cá entre nós, vó, prefiro botar fé no papai.

Ele pensa gostoso, diz que você anda por esse mundão, fazendo coisas boas. Diz também que logo, logo teremos notícias suas pela TV: “Velhinha Maluca salva Jacaré no Pantanal”.

Vó, não escrevi uma carta, dessas de correio, pois você não imagina o que eu descobri. Vó, o Brasil é grandão pra caramba. É bem maior que fazenda do vovô. Você nem vai acreditar. É para lá de oito milhões de quilômetros! Vó, nunca contei tudo isso

Faz uma forcinha, vó, e lê meu anúncio, só assim você vai saber o tamanho da minha saudade e vai voltar.

Lembra vó, quando ouviu no rádio que as borboletas da cidade estavam acabando? Eu não esqueci. Você arrumou um bocado de taturanas e espalhou pelo jardim da mamãe. Foi uma confusão e tanto! Tinha taturana na varanda, na cozinha e na sala. Tá lembrada, quando a mamãe achou uma no quarto? Caramba que grito! Depois disso, você saiu caçando as taturanas pela casa toda e bolou um viveiro para elas ficarem.

Vó, não conta para a mamãe, mas ainda tenho a cicatriz daquela taturana que me machucou. Mas, que valeu a pena, valeu. Foi bonito demais, quando as taturanas adormeceram e logo viraram borboletas. Ficamos a tarde toda olhando. Elas saíram dos casulos, abriram as asas e voaram.

Sabe aqueles bichos que você trouxe aqui para casa? Salvamos quase todos. A mariana, a canarinha que não podia voar. Ainda não consegue, mas já é mamãe. Nasceu a Rafaela, uma canarinha simpática, igualzinha a Mariana. Só que com uma diferença, Rafaela nasceu certinha. Ela voa, vó! Isso não é bom?

O Camões, vó, continua cego. Não nasceu outro olho nele. Já come sozinho. Ele até voa, vó, mas vive dando cabeçada no viveiro, quando se entusiasma muito.

Agora o Tadeu conseguiu sarar. Ficou um tucano bonito. Empenou e não para de gritar. Mamãe acha que sente saudades suas.

Vó, agora tenho que contar uma história triste. É sobre Quintana, o papagaio. Ele era pequenininho lembra? Pois é, ele continuou daquele tamanho.

Não cresceu nenhum tiquinho, ou tão pouco empenou. Vó, ele não conseguiu e voou para o céu.

Não fica triste, ele morreu do jeitinho que você queria. Livre e na árvore dele.

Vó você precisa voltar. Ouvi dizer a TV que as pessoas continuam usando aquele troço que você tinha medo e dizia que fazia mal para os bichinhos: o “agrotóxico”.

Sabe, vó, suas borboletas partiram faz tempo. Não sei onde comprar as taturanas, você não me disse. Você também se esqueceu de me dizer onde encontrar bichos doentes para cuidar.

Eu ainda não cresci muito, não sei das coisas como você. Volta vó!

Dos bichos que você trouxe, nós cuidamos, mas existem outros precisando de ajuda.

Vó, agora vou parar, pra você eu conto, tô chorando...

Volta logo, vó...

 - Sua vó vai gostar da sua carta, filho.

- Acha que ela vai ver o anúncio do jornal, moço?

- Com certeza esteja ela onde estiver...

(Regina Siguemoto, Anúncio de Jornal. São Paulo: Editora do Brasil, 1996.).

 

Aqui em casa meu filho tem o privilégio de conviver com os avós e Deus me deu a oportunidade de torná-los grandiosamente “avós”.

Como fico em casa posso cuidar dele, mas sei que muitos avós hoje em dia estão virando “pais dos netos”, pois seus filhos precisam ir trabalhar e não tem onde deixa-los... triste pois a doçura deste texto que citei só pode vim de “Vovó e Vovô”, com açúcar...se eles tem que criar seus netos, essa magia se acaba.
 
Pensem nisso!

Abraços Mãe de moleque.


Fonte:
Lingua Portuguesa, de Luiz Puntel e Fátima Chaguri Oleira, 2 série

- Coleção Curumim

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