Criança precisa de amigos ...


Hoje a nossa colunista fala sobre a necessidade da criança em fazer amigos e o papel importante dos pais nesta etapa da vida.
 
             Vivemos em uma cultura que se diz valorizar a habilidade de socialização e interação social. Ter amigos, conviver com outras pessoas, é tão fundamental na formação do caráter das crianças quanto a escola ou a família. Entretanto, o trabalho, a falta de tempo dos pais, a falta de segurança do país, principalmente nas grandes cidades, a inversão de valores, e o apego à tecnologia, com o avanço vertiginoso das redes sociais são os maiores entraves.

             Atualmente, a maioria das famílias quando não está trabalhando, e as crianças não estão estudando ou fazendo alguma atividade extracurricular, se habituaram a ficar o dia todo em casa, trancadas em uma sala ou em um quarto, vendo televisão ou brincando com jogos de computador e videogame, aos cuidados de uma babá ou de terceiros; deixando de interagir com outras pessoas adultas ou crianças, deixando de ter a convivência corpo a corpo; quando há interação, é via internet, pelo celular ou computador. Sair de casa, para dar uma volta, no seu bairro, com seus filhos, ir à casa dos seus vizinhos, visitar parentes, conversar com pessoas que moram, lado a lado do seu apartamento ou casa, parece, que são ações ultrapassadas.

             E na escola, embora, os educadores reconheçam a importância das interações sociais no desenvolvimento das crianças, entre seus pares da mesma faixa etária, nota-se que em muitas instituições os conteúdos, ainda, continuam ganhando maior espaço, e com muita mais frequência e importância. Brincar, hoje, tornou uma atividade controlada demais, cheia de normas, ou motivo para introduzir um conteúdo de forma lúdica; e muitas vezes, o “jogar conversa fora”, o brincar voluntariamente e espontaneamente é visto como perda de tempo, diante do currículo imenso que o professor precisa esgotar /cumprir até o final do mês, bimestre ou ano.

 
         Cada fase da vida oferece ao indivíduo desafios importantes para o desenvolvimento das relações humanas. Na infância, segundo a educadora Adriana Friedmann, "Brincar é fundamental por ser uma das linguagens expressivas do ser humano. Proporciona a comunicação, a descoberta do mundo, a socialização e o desenvolvimento integral". Quando chegam à adolescência, costumam viver em grupos, então, se vestem, se penteiam, falam de forma parecida, compartilham as mesmas músicas, os mesmos filmes, os mesmos celulares, os mesmos lugares para se divertirem. Mas, segundo Freud, a pessoa só pertence a um grupo quando entra num processo de identificação com os outros, ou seja, quando constrói laços emocionais com base em objetos reais ou simbólicos compartilhados. Assim, através dessa convivência por imitação, se estabelecem diálogos, opiniões, bons hábitos, e também, infelizmente, os maus costumes. Mas, quase sempre, os relacionamentos são saudáveis e ajudam na estruturação da autonomia e personalidade de um futuro adulto.

             Mas, segundo Vygotsky, “todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica) e, depois, no interior da criança (intrapsicológica)”. Para ele, o pensamento é construído aos poucos, através da interação da criança com as condições de vida social e nas formas histórico-sociais da espécie humana.

            É através desse processo de interação da criança com o seu meio e identificação com os outros, que a mesma construirá os primeiros laços de amizade entre os seus pares ou grupos.  Esses primeiros vínculos, embora, muitos acreditem ser uma proximidade quase que inata; para alguns fazer amizade não é tão natural, quanto para outros. Sejam por timidez ou por causa da correria cotidiana; muitas crianças, jovens e adultos têm, cada vez, menos tempo e menos amigos verdadeiros. Por isso, os vínculos afetivos estão, cada vez, mais difíceis, pois não são criados magicamente, mas pela convivência, da qual muitas crianças dependem para entrarem em contato com outras crianças.

 

            E, sendo assim, os pais devem disponibilizar/facilitar contatos dos seus filhos com os filhos dos seus amigos. Segundo um estudo, feito através de pesquisas de campo, "a família exerce um papel importante nas amizades" e que as mães "desempenham o importante papel de procurar manter as amizades dos filhos ou possibilitar o estabelecimento de novas amizades". Há autores que sugerem que a consciência da amizade comece bem antes dos quatro anos. Sabemos que desde que a criança nasce ela já começa a conviver com a família, parentes, vizinhos, amigos dos pais, etc. O desenvolvimento dessas habilidades sociais só vai melhorando, ou seja, passando por um processo de refinamento.

             Segundo o escritor Sergio Sinay, sociólogo, especialista em vínculos humanos, os pais que delegam a educação e a atenção aos filhos, a terceiros - babás, escolas e até para as novas tecnologias – como celular, televisão e computadores têm uma conduta errada, pois transmitem aos filhos a ideia de que tendo dinheiro podem transferir a outrem aquilo que lhes cabe fazer. E “a infância e a adolescência são etapas muito breves da vida e necessárias para o amadurecimento biológico, psíquico e cognitivo. Seremos adultos a maior parte da nossa vida. A adolescência termina entre os 18 e os 19 anos. Quando os pais são ausentes ou não cumpriram suas funções, vemos adolescentes imaturos de 30 ou 40 anos”.

             Então, acredito que se os pais tornarem mais presentes, sempre, que possível, e conseguirem limitar/selecionar/monitorar o uso do computador e TV também, poderão criar filhos mais sociáveis, menos isolados, mais saudáveis e até mais estudiosos. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade de Otago, na Nova Zelândia, crianças não deveriam assistir mais de uma ou duas horas de programas de televisão por dia, devido aos efeitos negativos que o excesso causa à criança, levando - a ter menos relações sociais com amigos e parentes, ter comportamentos agressivos, tendência de sentir mais emoções negativas, e desenvolver até comportamentos anti-sociais. Em Miami, as escolas limitam o seu uso. Segundo um professor da escola Waldorf, em Miami, “o cérebro da criança precisa do sono para assimilar o aprendizado. Se durante o dia, houve o estímulo da televisão com suas cores, informações, sons, imagens e mensagens muito fortes, o cérebro vai usar a noite para assimilar isto, não o aprendizado da escola. Além de outros efeitos negativos que a televisão causa nas crianças, como: hiperatividade, incentivo ao consumo, informações precoces”.

            Desse modo, é preciso que os pais se desdobrem/ inventem/ disponibilizem tempo para promover passeios, desenvolver práticas esportivas, e levar os filhos a saírem da rotina. “O estímulo dos pais pode ser crucial para tirá-los um pouco desse mundo virtual e ajudá-los a criarem um hábito saudável que pode ser levado para o resto da vida”, como alertou o médico do esporte Gustavo Magliocca, no Bem Estar;

          Portanto, a responsabilidade dos pais é intransferível e inadiável. Não há como transferir para outros ou prorrogar. O tempo passa, e como passa! Há muitos valores e bons costumes, e a maioria deles deve ser transmitidos/ensinados/estimulados desde pequenos.  Estimular a conviver bem, desenvolver bons hábitos e boas maneiras são três pilares que valem para toda a vida. É muito importante, tanto na formação da personalidade, no desenvolvimento social, quanto para a saúde de qualquer pessoa. Crianças, jovens e adultos com relações de amizade estáveis têm o desenvolvimento psicológico mais saudável: têm menor risco de sofrer de depressão, têm mais auto-estima e bem-estar, menos stress e ansiedade. Quando não são dadas essas oportunidades, na infância, crescem não sabendo lidar com os “nãos”, e com as adversidades da vida.

Listamos, abaixo, algumas ações importantes que podem ser adotadas pelos pais, visando o desenvolvimento das habilidades sociais dos filhos. Confira: 

·         Primeiramente, todo pai e mãe devem dar o exemplo. Cativar os seus próprios amigos. Ter um bom papo. Cumprimentar, sempre, com um sorriso e um aperto de mão. Ter boas maneiras é tão importante quanto o que ensinar. O exemplo é a melhor forma. Gentileza é contagiosa mesmo com os pequenos;

·         Disponibilizar mais tempo para os filhos;

·         Conversar com outros pais e empreender projetos comuns, ajuda a afirmar a tarefa e permite a troca de experiências úteis;

·         Promover passeios, encontros ao Shopping Center, clube, restaurante, festas de aniversários com amigos que tenham filhos, oportunizando aos seus filhos passarem algum tempo junto com outras crianças;

·         Disponibilizar/combinar horários para visitarem e receberem outras famílias em sua casa (do seu círculo de amizades, da família, do trabalho ou da igreja) que tenham crianças da mesma idade;

·         Fazer passeios ao ar livre, como ir a um parque infantil ou a um clube, praia ou áreas para caminhadas a pé ou de bicicleta com seus filhos, onde têm outras crianças diferentes;

·         Limitar o uso do computador e TV também é uma boa;

·         Compartilhar algumas atividades em conjunto, caminhadas a pé ou de bicicleta, ou algumas práticas esportivas.

·         Conversar com seu filho ou filha sobre os colegas de escola, passando, assim, a conhecer melhor os amiguinhos dele ou dela, e o motivo por que seu filho ou sua filha gosta deles;

·         Uma atitude bacana é convidar alguns colegas deles para brincarem na sua casa. O contato verdadeiro com outras crianças pode ser mais divertido do que ficar só nos relacionamentos virtuais;

·         Limitar o uso do computador também é uma boa;

·         Tratar bem, em casa, os amiguinhos do seu filho ou filha. Seu filho precisa saber que vocês, pais e mães, gostam dos amigos deles;

·         Respeitar a forma como seu filho ou filha socializa. Há os que fazem amizade rapidamente, e os que levam mais tempo. Alguns preferem grandes grupos, outros se sentem mais confortáveis com um ou dois amigos próximos;

·         Se o seu filho é tímido ou parece ter dificuldades com novos amigos, encoraja-o, ajude-o, apresentando outras crianças. Quando os pais são do mesmo círculo de amizades, os filhos têm uma tendência natural de conviverem melhor.


Abraços
Profª +Nilva Moraes Ferreira 

 

 

 

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